{"id":23354,"date":"2011-10-18T00:30:49","date_gmt":"2011-10-18T00:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ufrb.edu.br\/2011\/10\/18\/nota-do-professor-paulo-gabriel-soledade-nacif-reitor-da-universidade-federal-do-reconcavo-da-bahia\/"},"modified":"2011-10-18T00:30:49","modified_gmt":"2011-10-18T00:30:49","slug":"nota-do-professor-paulo-gabriel-soledade-nacif-reitor-da-universidade-federal-do-reconcavo-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/noticias\/nota-do-professor-paulo-gabriel-soledade-nacif-reitor-da-universidade-federal-do-reconcavo-da-bahia\/","title":{"rendered":"Nota do Professor Paulo Gabriel Soledade Nacif, Reitor da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia"},"content":{"rendered":"<p>Um v\u00eddeo editado cuidadosamente para ocultar o contexto das minhas coloca\u00e7\u00f5es, durante as mais de vinte horas da Mesa de Negocia\u00e7\u00e3o com os estudantes, foi divulgado por um grupo de discentes, alguns, leg\u00edtimos militantes de partidos e outros coletivos pol\u00edticos. Nele, uma frase descontextualizada est\u00e1 sendo propagada para dar a falsa impress\u00e3o de que teria sido racista em minhas declara\u00e7\u00f5es. Eu, cujo combate a essa pr\u00e1tica, \u00e9 parte do meu cotidiano.<\/p>\n<p>Ao longo de toda a minha vida, lutei contra as desigualdades sociais e raciais, t\u00e3o delet\u00e9rias \u00e0 vida nacional e \u00e0 humanidade. Como todo brasileiro, oriundo de fam\u00edlia negra e pobre, sei na pr\u00e1tica o real significado do racismo e da desigualdade. Por isso, ainda na condi\u00e7\u00e3o de estudante, na \u00e9poca da Ditadura Militar, participei ativamente em processos denunciando o racismo na sociedade brasileira. Como professor da UFBA, antes da exist\u00eancia de nossa UFRB, pude ajudar a mudar essa realidade. Presidi a comiss\u00e3o respons\u00e1vel pela relatoria do Projeto de Implanta\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas Afirmativas, instituindo o programa na UFBA, contribuindo para a conquista de uma robusta e corajosa medida de repara\u00e7\u00e3o ao povo negro, mudando a composi\u00e7\u00e3o social e racial daquela universidade, tornando-a mais inclusiva.<\/p>\n<p>Acreditamos desde o in\u00edcio que uma universidade implantada na regi\u00e3o mais negra do Brasil deveria refletir a composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e social do nosso povo. Ao tomar posse do cargo de Reitor da UFRB, minha primeira a\u00e7\u00e3o institucional foi criar a primeira Pr\u00f3-Reitoria de Pol\u00edticas Afirmativas e Assist\u00eancia Estudantil (PROPAAE) do Brasil.<\/p>\n<p>Ainda em 2006 criamos o F\u00f3rum 20 de Novembro, iniciativa que determina que nesse dia toda a nossa institui\u00e7\u00e3o se dedica integralmente \u00e0 reflex\u00e3o sobre as quest\u00f5es s\u00f3cio-raciais no Rec\u00f4ncavo, na Bahia e no Brasil. Em nossa universidade o n\u00famero de alunos que integram o programa de assist\u00eancia estudantil \u00e9 amplamente superior \u00e0 m\u00e9dia nacional. No in\u00edcio, quando constru\u00edmos as primeiras resid\u00eancias, sentamos e negociamos o modelo com os estudantes. Hoje temos sete resid\u00eancias universit\u00e1rias, cinco delas, pr\u00f3prias. Novas resid\u00eancias ser\u00e3o constru\u00eddas. Tudo isso em t\u00e3o pouco tempo de exist\u00eancia. Lamentavelmente essa minoria nada reconhece.<\/p>\n<p>Assistimos durante o per\u00edodo de paralisa\u00e7\u00e3o estudantil, a a\u00e7\u00f5es de desrespeito e ass\u00e9dio moral focadas principalmente na reitoria e servidores t\u00e9cnico-administrativos. Tais atitudes n\u00e3o possuem precedentes na vida universit\u00e1ria brasileira. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desconsiderar os evidentes v\u00ednculos que existem entre esses surpreendentes desrespeitos e as caracter\u00edsticas s\u00f3cio-raciais da nossa regi\u00e3o, da nossa universidade e do nosso Reitorado, principalmente quando vemos que tais atitudes partiram de uma parcela bem espec\u00edfica do corpo discente.<\/p>\n<p>J\u00e1, no final das negocia\u00e7\u00f5es que culminaram na desocupa\u00e7\u00e3o da Reitoria e outros espa\u00e7os da UFRB, considerei inadmiss\u00edvel continuar assistindo a cobran\u00e7as desmedidas das nossas a\u00e7\u00f5es administrativas, sempre acompanhadas de ironias, sarcasmos e agress\u00f5es, \u00e0 UFRB, \u00e0 reitoria e aos nossos servidores t\u00e9cnico-administrativos. Busquei, pedagogicamente, mais uma vez explicar aos alunos as dificuldades de implanta\u00e7\u00e3o da UFRB, buscando que os mesmos sa\u00edssem de uma postura de agressividade para construir a solidariedade necess\u00e1ria a um projeto como esse.<\/p>\n<p>O que fizemos foi evidenciar que a desigualdade s\u00f3cio-racial at\u00e9 hoje reflete negativamente em toda regi\u00e3o. Essa exclus\u00e3o tem conseq\u00fc\u00eancias em todas as \u00e1reas, desde a car\u00eancia de infraestrutura at\u00e9 a qualifica\u00e7\u00e3o profissional que, numa sociedade ainda apartada, penaliza ainda mais os pobres e negros. Defendemos ali que os servidores n\u00e3o s\u00e3o \u201cincompetentes\u201d ou \u201ccorruptos\u201d, como foram chamados v\u00e1rias vezes no processo de greve estudantil. Os servidores n\u00e3o podem ser condenados pelos problemas que s\u00e3o inerentes \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de uma universidade deste porte.<\/p>\n<p>Disse e reafirmo que \u201co desafio \u00e9 maior\u201d, uma vez que a desigualdade s\u00f3cio-racial \u00e9 maior. Disse e reafirmo que precisamos ser solid\u00e1rios aos nossos servidores que possuem os sal\u00e1rios mais baixos do Servi\u00e7o P\u00fablico Federal. Disse e reafirmo que os nossos servidores v\u00eam das classes populares e merecem respeito por isso. Disse e reafirmo que a maior parte dos nossos servidores s\u00e3o afrodescendentes e, sofremos todos, o perverso racismo que infelizmente o Brasil teima em n\u00e3o reconhecer e cujo efeito \u00e9 profundamente delet\u00e9rio na nossa sociedade. Disse e reafirmo que o tratamento dispensado aos servidores e \u00e0 reitoria \u00e9 racismo. Disse e reafirmo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel exigir que a UFRB funcione, j\u00e1 nos seus primeiros anos, como uma universidade consolidada dos grandes centros, situadas em ambiente em que o sistema capitalista e o Estado atuam e funcionam em condi\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas. Disse e reafirmo que cumprir em curto e m\u00e9dio prazo as \u201cexig\u00eancias\u201d dos estudantes, na sua \u00faltima pauta com 106 itens, mesmo que tiv\u00e9ssemos recursos, seria uma exig\u00eancia desumana com o nosso competente corpo t\u00e9cnico-administrativo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da ra\u00e7a ou cor existe apenas em raz\u00e3o da ideologia racista, sem nenhuma base biol\u00f3gica. Segundo Edward Telles no livro \u201cracismo \u00e0 brasileira\u201d, colocar no centro dessas discuss\u00f5es a cor \u00e9 importante porque as pessoas continuam a classificar e a tratar o outro segundo id\u00e9ias socialmente aceitas, e cita W.I. Thomas que declarou: \u201cse os homens definem situa\u00e7\u00f5es como reais, elas se tornam reais em suas conseq\u00fc\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel que esses militantes, alguns j\u00e1 diplomados pela UFRB, desconhe\u00e7am estudos que demonstram, por exemplo, que a escolaridade \u00e9 respons\u00e1vel pela maior parte das diferen\u00e7as na mobilidade social entre brancos e negros. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se desconhecer pesquisas que demonstram um Brasil no qual, j\u00e1 na pr\u00e9-escola, existem professores que s\u00e3o mais afetivos com crian\u00e7as brancas e que muitos ignoram atos discriminat\u00f3rios entre alunos.<\/p>\n<p>Lembro que na \u00e9poca da discuss\u00e3o do Programa de Pol\u00edticas Afirmativas da UFBA, o professor Jo\u00e3o Reis, participando de uma lista de discuss\u00e3o afirmou: \u201co Brasil \u00e9 um pa\u00eds miscigenado. Ali\u00e1s, os Estados Unidos tamb\u00e9m e diversos da Am\u00e9rica Latina, idem. Esse aspecto biol\u00f3gico n\u00e3o se traduz imediatamente na mentalidade das pessoas, em nenhum lugar. Uma coisa \u00e9 a biologia, outra \u00e9 a sociologia ou a antropologia do fen\u00f4meno &#8220;racial&#8221;. No Brasil a cor da pele e outros tra\u00e7os f\u00edsicos s\u00e3o pretextos para discriminar negativamente. Isso significa que ter a pele clara \u00e9 possuir um capital simb\u00f3lico<strong> <\/strong>que ajuda grandemente no processo de ascens\u00e3o social.\u201d<\/p>\n<p>As edi\u00e7\u00f5es de v\u00eddeos divulgados a cada momento n\u00e3o mostram que os estudantes, numa academia, se recusaram a permitir esse franco debate. Fui impedido, a partir dali, de concluir o racioc\u00ednio, sob acusa\u00e7\u00e3o de racismo e determinismo geogr\u00e1fico, tentando expressar o meu orgulho pelos nossos trabalhadores e da nossa hist\u00f3ria de luta que dura quase meio mil\u00eanio. E, num julgamento sum\u00e1rio de um verdadeiro tribunal de exce\u00e7\u00e3o, fui transformado naquele momento, em um \u201cracista\u201d. Em reuni\u00f5es anteriores fui chamado repetidamente de Hitler. Eu, que enfrentei a cr\u00edtica dos que diziam que as cotas iriam \u201cabaixar o n\u00edvel\u201d da universidade, enquanto o que se provou, por pesquisas, foi o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 lament\u00e1vel. Uma universidade amarrada a uma burocracia estatal desmedida deve se preparar para sobreviver a atrasos de suas obras. Mas, uma universidade n\u00e3o poder\u00e1 jamais sobreviver sem a capacidade de discuss\u00e3o cr\u00edtica, sin\u00f4nimo do pr\u00f3prio trabalho do intelectual. Milton Santos destacou que \u201ca universidade \u00e9 talvez a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que pode sobreviver apenas se aceitar cr\u00edticas, de dentro dela pr\u00f3pria, de uma ou outra forma. Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela est\u00e1 se condenando ao sil\u00eancio, isto \u00e9 \u00e0 morte, pois seu destino \u00e9 falar\u201d.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de aprofundar esta discuss\u00e3o, fundamental para entender as origens hist\u00f3ricas das dificuldades infraestruturais e log\u00edsticas dessa regi\u00e3o esquecida pelo Estado Brasileiro, por sua vez, indispens\u00e1vel \u00e0 compreens\u00e3o da gest\u00e3o acad\u00eamica, os militantes pol\u00edticos preferiram cortar um pequeno trecho de longos v\u00eddeos, oriundo de extensas negocia\u00e7\u00f5es, gravadas durante v\u00e1rios dias, e me caluniar, numa campanha pol\u00edtica para reverter o resultado do recente processo de consulta \u00e0 comunidade acad\u00eamica, que redundou na minha posse. Da\u00ed, aviltando a academia e a democracia, partem para uma sistem\u00e1tica destrui\u00e7\u00e3o moral de seus pretensos \u201cinimigos\u201d: n\u00f3s, que lutamos tanto para construir esta universidade.<\/p>\n<p>Tenho orgulho de termos uma universidade em que 71,89% dos estudantes s\u00e3o oriundos das classes C, D e E. Constru\u00edmos uma universidade na qual 84,3% dos estudantes se declaram afrodescendentes, algo sem precedentes na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o brasileira e que, sem as pol\u00edticas afirmativas n\u00e3o seria poss\u00edvel nesta etapa de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assumi este mandato h\u00e1 pouco mais de dois meses e, durante toda a elei\u00e7\u00e3o, defendi a excel\u00eancia aliada \u00e0 inclus\u00e3o social e elas ser\u00e3o as prioridades da nossa nova gest\u00e3o. Fui eleito com 88% dos votos v\u00e1lidos de nossa comunidade acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Se, durante esse processo de greve, negociamos at\u00e9 o final com este espec\u00edfico grupo de estudantes, num universo de mais de 8 mil, \u00e9 porque, embora minorit\u00e1rios, s\u00e3o tamb\u00e9m membros desta comunidade e devem ser tratados com respeito. H\u00e1 muito que o isolamento pol\u00edtico de tal coletivo tem os conduzido a uma progressiva e violenta escalada das agress\u00f5es, amea\u00e7as e cal\u00fanias.<\/p>\n<p>Ao difundirem agora a acusa\u00e7\u00e3o de racismo como estrat\u00e9gia pol\u00edtica e partid\u00e1ria para agredir a minha hist\u00f3ria de vida e a trajet\u00f3ria que constru\u00ed em defesa de uma sociedade mais justa e humana, estes militantes me levam a, na qualidade de professor concursado, membro da UFRB, fazer a defesa de minha integridade e desta universidade, que, para erguer, dedicamos importante parte de nossas vidas.<\/p>\n<p>A todo o momento este coletivo pol\u00edtico assaca acusa\u00e7\u00f5es, distorce a verdade, manipula os dados e realiza uma articulada campanha de destrui\u00e7\u00e3o da imagem p\u00fablica da UFRB. \u00a0A atitude de atacar a minha honra, ap\u00f3s um longo processo de negocia\u00e7\u00e3o e o fim da paralisa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem outro objetivo a n\u00e3o ser construir a f\u00f3rceps uma crise permanente de modo a inviabilizar as atividades da UFRB, ao arrepio da vontade da ampla maioria da comunidade acad\u00eamica. N\u00e3o se conformam com qualquer sa\u00edda negociada, tal qual a que conquistamos, querem o impasse, que n\u00e3o vir\u00e1.<\/p>\n<p>Em nome da minha hist\u00f3ria, do meu nome, da minha fam\u00edlia e de todos que lutaram pela implanta\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia, n\u00e3o tenho o direito de deixar de me manifestar contra essas agress\u00f5es e cal\u00fanias e, desta forma, repelir veementemente este tipo de pr\u00e1tica inquisit\u00f3ria e anti\u00e9tica.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o profundamente as centenas de mensagens de indigna\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria encaminhada pelos servidores docentes, t\u00e9cnico-administrativos, discentes e da sociedade brasileira. N\u00e3o obstante, tomarei as medidas cab\u00edveis para impetrar a\u00e7\u00f5es com vistas \u00e0 repara\u00e7\u00e3o dos danos causados \u00e0 minha honra e \u00e0 imagem da UFRB.<\/p>\n<p>Paulo Gabriel Soledade Nacif<br \/>Professor e Reitor da UFRB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um v\u00eddeo editado cuidadosamente para ocultar o contexto das minhas coloca\u00e7\u00f5es, durante as mais de vinte horas da Mesa de Negocia\u00e7\u00e3o com os estudantes, foi divulgado por um grupo de discentes, alguns, leg\u00edtimos militantes de partidos e outros coletivos pol\u00edticos. 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