{"id":28339,"date":"2019-04-08T20:22:01","date_gmt":"2019-04-08T20:22:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ufrb.edu.br\/2019\/04\/08\/pesquisa-da-ufrb-revela-ataques-aos-movimentos-negros-da-bahia-no-regime-militar\/"},"modified":"2019-04-08T20:22:01","modified_gmt":"2019-04-08T20:22:01","slug":"pesquisa-da-ufrb-revela-ataques-aos-movimentos-negros-da-bahia-no-regime-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/noticias\/pesquisa-da-ufrb-revela-ataques-aos-movimentos-negros-da-bahia-no-regime-militar\/","title":{"rendered":"Pesquisa da UFRB revela ataques aos movimentos negros da Bahia no regime militar"},"content":{"rendered":"<p>Segundo a historiografia brasileira, a ditadura militar instaurada h\u00e1 55 anos no Brasil espionou, perseguiu e minou a luta de movimentos sociais e raciais no Brasil na segunda metade da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio de 1980.<\/p>\n<p>Pesquisas recentes e documentos encontrados revelam que o movimento negro se configurava um problema para o governo da \u00e9poca porque repudiava o regime, contestava a propaganda oficial de um pa\u00eds sem racismo e encampava a necessidade do restabelecimento da democracia.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/ufrb.edu.br\/mphistoria\/images\/Disserta\u00e7\u00f5es\/Turma_2014\/Andersen_Kubnhavn_Figueiredo.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">disserta\u00e7\u00e3o do professor<\/a> Andersen Figueiredo, mestre pelo programa de Hist\u00f3ria da \u00c1frica, da Di\u00e1spora e dos Povos Ind\u00edgenas da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), ganhou destaque na imprensa nacional por revelar o uso de \u201carapongas\u201d pelo regime militar no processo de repress\u00e3o aos negros.<\/p>\n<figure><figcaption>1\u00aa Marcha da Consci\u00eancia Negra &#8211; Arquivo ZUMVI Fotogr\u00e1fico.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A pesquisa realizada por Andersen e orientada pelo docente Antonio Liberac com base nos ataques aos movimentos negros da Bahia e no regime militar aponta constante persegui\u00e7\u00e3o aos l\u00edderes dos movimentos. &#8220;Sempre que eles deixavam as reuni\u00f5es, eram rotineiramente vigiados, seguidos pelos agentes da pol\u00edcia. Foi um momento tenso para todos que militaram na d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio de 1980&#8221;, explica.<\/p>\n<p>O Movimento negro surgiu da demanda reprimida de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o, socialmente exclu\u00edda do acesso aos bens de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, refletindo-se na condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, a que foi exposta historicamente, ora pelo racismo institucional, ora pelo imagin\u00e1rio racista, fundamentado na \u201cideologia do embranquecimento\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o movimento negro buscou estrat\u00e9gias de luta contra o racismo e pela integra\u00e7\u00e3o do homem de cor na sociedade brasileira. Nessa trajet\u00f3ria destacam-se a Imprensa Negra, a Frente Negra Brasileira (FNB), a Uni\u00e3o dos Homens de Cor (UHC) o Teatro Experimental do Negro (TEN) e o Movimento Negro Unificado (MNU), al\u00e9m de outras entidades negras surgidas no per\u00edodo do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Racismo camuflado<\/strong><\/p>\n<p>Andersen Figueiredo ressalta que o movimento negro no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o utilizou de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias como forma de combater o racismo, o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o racial vigente e permanente na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rias foram \u00e0s a\u00e7\u00f5es desencadeadas pelos militantes, a\u00e7\u00f5es estas que se configuraram em conquistas ainda modestas comparadas com a dimens\u00e3o da d\u00edvida que o Estado tem com o povo afrodescendente\u201d, explica Andersen.<\/p>\n<p>\u201cUma dessas conquistas tem sido desmontar o discurso da suposta democracia racial criada pela elite branca brasileira. Essa ideologia constituiu-se em o mecanismo norteador das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, mostrando ao mundo uma rela\u00e7\u00e3o de aparente harmonia existente entre brancos e negros\u201d, aponta o pesquisador.<\/p>\n<p>Para ele, a aus\u00eancia de conflitos \u00e9tnico-raciais no Brasil propagado pela ideologia da democracia racial significou a camuflagem do racismo no pa\u00eds, tendo como resultado a dificuldade de articula\u00e7\u00e3o na luta contra a exclus\u00e3o social e econ\u00f4mica, vivenciadas por homens e mulheres negras na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>De acordo com ele, o grupo de militantes adeptos da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, da chamada esquerda, acreditava que, por meio de discursos ideol\u00f3gicos, pensavam em conquistar o poder institucional, o qual seria a forma mais vi\u00e1vel de luta contra o racismo estrutural. \u201cAssim, promoveram palestras, semin\u00e1rios, panfletagens, congressos e assembleias. O exemplo da II Assembl\u00e9ia Nacional do MNUCDR, realizada em 04 de novembro de 1978, na cidade de Salvador (BA), durante o ent\u00e3o regime militar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sem concilia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Entre os exemplos de entidades, destacamos o posicionamento de atua\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado (MNU). Para os militantes Gilberto Leal, Raimundo Gon\u00e7alves dos Santos (Buj\u00e3o), Edu Omo Oguian, o movimento negro n\u00e3o poderia se deixar cooptar ou assumir qualquer pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o com o Estado.<\/p>\n<p>O presidente do grupo cultural Olodum, Jo\u00e3o Jorge Santos Rodrigues defendia a bandeira do engajamento militante a partir das manifesta\u00e7\u00f5es culturais dos blocos, afro e afox\u00e9, no movimento negro baiano na d\u00e9cada de 1970. Jo\u00e3o Jorge afirmava que \u201ca milit\u00e2ncia do movimento negro nos anos 70, tinha uma ideia de quem fazia cultura era alienado, era conservador, era ultrapassado, e que a pol\u00edtica nova do MNU era mais eficaz, promover a popula\u00e7\u00e3o negra. N\u00f3s discord\u00e1vamos, n\u00f3s diz\u00edamos que a pol\u00edtica interessante, deveria ser aquela pol\u00edtica de Am\u00edlcar Cabral, a arma da cultura na Guin\u00e9-Bissau, as ideias de Samora Machel em Mo\u00e7ambique e as ideias do poeta e escritor Agostinho Neto em Angola. Ent\u00e3o, n\u00f3s est\u00e1vamos mais africanizados\u201d<\/p>\n<p>O outro grupo dentro do MNU alegava que seria prudente e melhor se aliar aos partidos pol\u00edticos, a universidade, a academia e manter os blocos afro e afox\u00e9s como fator de aliena\u00e7\u00e3o. Seria aquilo que na vis\u00e3o dessas pessoas o sistema permitia que funcionasse e n\u00f3s argument\u00e1vamos que o Il\u00ea Aiy\u00ea, o Mal\u00eaDebal\u00ea, o Badau\u00ea, os Filhos de Gandhy, os terreiros de candombl\u00e9 eram n\u00facleos de resist\u00eancia permanente, era anterior inclusive ao MNU.<\/p>\n<p>Para o professor, poeta e militante Jonatas Concei\u00e7\u00e3o da Silva, o surgimento do Il\u00ea Aiy\u00ea se trata de um marco pol\u00edtico indo de encontro \u00e0 ideologia da democracia racial em plena ditadura militar.<\/p>\n<p>Para Jonatas Concei\u00e7\u00e3o, o Il\u00ea Aiy\u00ea surgiria como express\u00e3o dos anseios de grupos de negros em busca de autoafirma\u00e7\u00e3o cultural entende-se: os negros t\u00eam uma hist\u00f3ria baseada em sua heran\u00e7a africana e querem fazer com que esta hist\u00f3ria seja resgatada, expandida e assumida, ao menos na Bahia, o estado de maior contingente negro do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>P\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o x racismo<\/strong><\/p>\n<p>O movimento negro brasileiro em sua trajet\u00f3ria no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o foi descobrindo formas de enfrentar o racismo, pelas intera\u00e7\u00f5es sociais, no cotidiano do trabalho e lazer, na religiosidade, s\u00edmbolos e signos, ora com elementos do sincretismo, ora como membros de religi\u00f5es de matriz africana.<\/p>\n<p>\u201cParalelamente, foram desenvolvidas pr\u00e1ticas de express\u00e3o corporal, como a capoeira, a dan\u00e7a e o ritmo percussivo dos tambores. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 est\u00e9tica negra, o destaque \u00e9 para as indument\u00e1rias e adere\u00e7os dos penteados e tran\u00e7ados dos cabelos de homens e mulheres negras\u201d, destaca Andersen.<\/p>\n<p>Para Andersen, criou-se, assim, o cen\u00e1rio de engajamento e identifica\u00e7\u00e3o que contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de um discurso de luta racial pautada na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Movimento Negro.<\/p>\n<p>\u201cApesar de existirem antagonismos e at\u00e9 cis\u00f5es dentro do movimento negro no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, perpassando pela Frente Negra Brasileira (FNB), na d\u00e9cada de 1930, o Teatro Experimental do Negro (TEN), a Uni\u00e3o dos Homens de Cor (UHC), na d\u00e9cada de 1940, o Movimento Negro Contempor\u00e2neo, com destaque ao Movimento Negro Unificado (MNU), na d\u00e9cada de 1970, al\u00e9m de outras organiza\u00e7\u00f5es negras surgidas nas respectivas d\u00e9cadas, essas entidades se utilizaram da panfletagem para denunciar o racismo na sociedade brasileira\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Para Andersen, a integra\u00e7\u00e3o do negro na sociedade, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o como um dos pilares de inclus\u00e3o social, ou por meio da cultura, incluindo o teatro, a dan\u00e7a, a m\u00fasica foram estrat\u00e9gias positivas e serviram de alicerce para as atuais e as futuras conquistas do povo negro.<\/p>\n<p><strong>Fruto da milit\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>Andersen destaca conquistas provenientes das a\u00e7\u00f5es da milit\u00e2ncia de movimentos negros: Decreto n\u00ba 4.887\/03 que delimita os territ\u00f3rios aos remanescentes de quilombos; a Lei 10.639\/03, que incluiu a Hist\u00f3ria da \u00c1frica na grade curricular do ensino fundamental e m\u00e9dio. A partir de 1995, teve in\u00edcio a revis\u00e3o nos conte\u00fados dos livros did\u00e1ticos, que ainda manifestavam algum tipo de preconceito racial, excluindo-os da cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As cotas para o ingresso no ensino superior, como tamb\u00e9m em concursos p\u00fablicos, atrav\u00e9s da Lei 12.990\/14, foram outro ganho significativo, \u201cembora a elite considerada branca se pronunciasse contra\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas introduziram na sociedade, \u201ca necessidade de democratiza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos recursos materiais, mediante a promo\u00e7\u00e3o do ingresso na universidade, potencializando, por conseguinte, acesso ao mercado formal de trabalho, atrav\u00e9s de sal\u00e1rio digno\u201d, diz Andersen.<\/p>\n<p><strong>UOL repercute pesquisa<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Andersen em depoimento ao UOL, as persegui\u00e7\u00f5es partiam de informa\u00e7\u00f5es adquiridas pelo monitoramento oficial, seja com pessoas infiltradas, seja por fotografias ou mesmo acesso a conte\u00fado de encontros. &#8220;Uma das pautas era como o negro poderia se inserir na pol\u00edtica para retomada da democracia. As reuni\u00f5es eram clandestinas, podiam ocorrer em v\u00e1rios bairros, sem pr\u00e9via convoca\u00e7\u00e3o. Isso foi ganhando espa\u00e7o, e n\u00e3o havia locais para esses militantes se reunirem por causa da persegui\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia \u00e0 \u00e9poca. Os &#8216;arapongas&#8217; iam para ver o que estava sendo discutido&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o &nbsp;do monitoramento dos movimentos, quem participava das reuni\u00f5es sofria constantes abusos. &#8220;Al\u00e9m de perseguidos, muitos ativistas foram presos, outros perderam seus empregos por frequentar as reuni\u00f5es do movimento negro. Tamb\u00e9m houve uma persegui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>Confira a reportagem completa publicada pelo UOL sobre <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/reportagens-especiais\/ditadura-militar-espionou-movimento-negro-reprimiu-e-infiltrou-agentes\/index.htm#repressao-aos-negros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">repress\u00e3o aos negros<\/a>&nbsp;no regime militar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo a historiografia brasileira, a ditadura militar instaurada h\u00e1 55 anos no Brasil espionou, perseguiu e minou a luta de movimentos sociais e raciais no Brasil na segunda metade da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio de 1980. 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