{"id":47108,"date":"2026-09-10T16:16:19","date_gmt":"2026-09-10T19:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/?p=47108"},"modified":"2026-09-10T16:16:19","modified_gmt":"2026-09-10T19:16:19","slug":"pesquisadores-da-ufrb-univasf-e-ufscar-descobrem-nova-especie-de-quiabento-na-caatinga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/destaque-interno\/pesquisadores-da-ufrb-univasf-e-ufscar-descobrem-nova-especie-de-quiabento-na-caatinga\/","title":{"rendered":"Pesquisadores da UFRB, Univasf e UFSCar descobrem nova esp\u00e9cie de quiabento na Caatinga"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cVoc\u00eas pegaram o p\u00ealo-da-serra? Esse gruda em todo mundo!\u201d, disse um morador da regi\u00e3o do Distrito de Irec\u00ea, no centro-norte da Bahia, aos pesquisadores que discutiam qual nome dar \u00e0 esp\u00e9cie rec\u00e9m-descoberta de quiabento.<\/p>\n\n\n\n<p>A observa\u00e7\u00e3o, feita durante o trabalho de campo, ajudou a batizar a nova esp\u00e9cie como <em>Quiabentia pelodaserra. <\/em>Ela foi<em> <\/em>identificada pelos pesquisadores Daniela Zappi, da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), Jos\u00e9 Alves Siqueir, da Universidade Federal do Vale do S\u00e3o Francisco (Univasf) e Nigel Taylor, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar).<\/p>\n\n\n\n<p>A planta foi encontrada em afloramentos de calc\u00e1rio em uma propriedade privada da regi\u00e3o de Irec\u00ea e apresenta caracter\u00edsticas que a diferenciam das outras esp\u00e9cies conhecidas do g\u00eanero. Suas flores s\u00e3o brancas e ficam pendentes em rela\u00e7\u00e3o ao caule, enquanto os espinhos, tamb\u00e9m brancos, contrastam com as rochas calc\u00e1rias onde a planta cresce. \u00c9 justamente a estrutura desses espinhos que ajuda a explicar o nome popular dado \u00e0 planta. Fin\u00edssimos e microscopicamente barbados, eles se prendem aos bra\u00e7os e \u00e0s pernas de quem passa pela vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da apar\u00eancia, o comportamento das flores tamb\u00e9m distingue a nova esp\u00e9cie. Enquanto as outras do g\u00eanero possuem p\u00e9talas rosa-choque e flores que se abrem durante o dia, as flores da <em>Quiabentia pelodaserra<\/em> permanecem abertas durante a noite, apresentam odor desagrad\u00e1vel e produzem n\u00e9ctar abundante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>Quiabentia pelodaserra<\/em> \u00e9 a terceira esp\u00e9cie conhecida do g\u00eanero. At\u00e9 ent\u00e3o, havia registros de uma esp\u00e9cie nos afloramentos de calc\u00e1rio da regi\u00e3o do Perua\u00e7u, no norte de Minas Gerais, e outra na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Daniela Zappi, a descoberta chama aten\u00e7\u00e3o para o quanto a biodiversidade da Bahia ainda pode surpreender, mesmo ap\u00f3s d\u00e9cadas de pesquisa. \u201cDepois de mais de 20 anos estudando as cact\u00e1ceas da Bahia, \u00e9 uma grande novidade encontrar ainda uma que n\u00e3o tinha sido descrita\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova esp\u00e9cie ocorre no chamado Distrito de Irec\u00ea, uma subdivis\u00e3o biogeogr\u00e1fica que re\u00fane \u00e1reas de afloramentos de calc\u00e1rio e concentra esp\u00e9cies end\u00eamicas, ou seja, que ocorrem exclusivamente em determinada regi\u00e3o. O Distrito de Irec\u00ea \u00e9 uma das tr\u00eas regi\u00f5es de afloramentos de calc\u00e1rio do grupo Bambu\u00ed e, segundo estudos anteriores, a menos conhecida delas. A ocorr\u00eancia da <em>Quiabentia pelodaserra<\/em> tamb\u00e9m estabelece uma conex\u00e3o com o Distrito de Perua\u00e7u, onde cresce a esp\u00e9cie <em>Quiabentia zehntneri<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"538\" src=\"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra2-1024x538.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-47110\" srcset=\"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra2-1024x538.png 1024w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra2-300x158.png 300w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra2-768x403.png 768w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra2.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c0 esquerda, aspecto da planta de <em>Quiabentia pelodaserra<\/em> com seus espinhos; \u00e0 direita, \u00a0mapa com a distribui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de quiabentos no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A descoberta tamb\u00e9m ajuda a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre o Distrito de Irec\u00ea e outras \u00e1reas de ocorr\u00eancia de quiabentos. A esp\u00e9cie <em>Quiabentia zehntneri<\/em>, encontrada nos afloramentos calc\u00e1rios do Distrito de Perua\u00e7u, ocorre tamb\u00e9m nas proximidades de Bom Jesus da Lapa, no oeste baiano. Segundo a pesquisadora, a nova esp\u00e9cie de Irec\u00ea apresenta diferen\u00e7as importantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>Q. zehntneri<\/em>, entre elas o prov\u00e1vel sistema de poliniza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 muito importante a gente distinguir entre as duas esp\u00e9cies. A de Bom Jesus da Lapa \u00e9 polinizada por beija-flores e essa de Irec\u00ea \u00e9 polinizada provavelmente por morcegos\u201d, explica Daniela. A pesquisadora ressalta, no entanto, que a hip\u00f3tese sobre a poliniza\u00e7\u00e3o por morcegos ainda precisa ser confirmada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A estudiosa destaca que conhecer quais esp\u00e9cies ocorrem em cada regi\u00e3o e entender a rela\u00e7\u00e3o entre as diferentes \u00e1reas de ocorr\u00eancia ajudam a compreender a biodiversidade da Caatinga. \u201cSe a gente n\u00e3o sabe onde as esp\u00e9cies est\u00e3o, \u00e9 muito mais dif\u00edcil conservar essa biodiversidade\u201d, defende Daniela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desafios para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o do Distrito de Irec\u00ea, no entanto, enfrenta mudan\u00e7as que amea\u00e7am esses ambientes. Devido \u00e0 composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica alcalina das rochas calc\u00e1rias, os terrenos do entorno s\u00e3o f\u00e9rteis e utilizados, durante a esta\u00e7\u00e3o das chuvas, para o cultivo de feij\u00e3o, mamona e algod\u00e3o. Para usar essas \u00e1reas, fazendeiros enterram os lajedos calc\u00e1rios, que v\u00eam desaparecendo na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"538\" src=\"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra3-1024x538.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-47111\" srcset=\"https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra3-1024x538.png 1024w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra3-300x158.png 300w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra3-768x403.png 768w, https:\/\/ufrb.edu.br\/portal\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/quiabentopelodaserra3.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00a0Terreno arado na regi\u00e3o de Irec\u00ea onde os afloramentos rochosos est\u00e3o desaparecendo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de ovinos resistentes \u00e0 seca nas \u00e1reas naturais tamb\u00e9m amea\u00e7a a vegeta\u00e7\u00e3o exclusiva da regi\u00e3o. Daniela alerta, ainda, que \u201ccom o desaparecimento das forma\u00e7\u00f5es de calc\u00e1rio na regi\u00e3o de Irec\u00ea, v\u00e3o desaparecer tamb\u00e9m diversas esp\u00e9cies de plantas, de cact\u00e1ceas, outras plantas suculentas como bromeli\u00e1ceas, que crescem exclusivamente sobre essas rochas\u201d. Segundo ela, muitas dessas plantas s\u00e3o altamente end\u00eamicas e ocorrem em apenas uma ou duas regi\u00f5es da Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>A perda dessas esp\u00e9cies pode afetar tamb\u00e9m rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que ainda n\u00e3o s\u00e3o completamente conhecidas. \u201cSe essa planta \u00e9 polinizada por um morcego, retirar essa planta do ambiente vai fazer com que esse morcego n\u00e3o tenha mais o seu alimento\u201d, explica Daniela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Saiba mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o completa da nova esp\u00e9cie pode ser consultada no <a href=\"https:\/\/bioone.org\/journals\/bradleya\/volume-2026\/issue-44\/brad.n44.2026.a9\/An-extraordinary-third-species-of-Quiabentia-Britton--Rose-Cactaceae\/10.25223\/brad.n44.2026.a9.full\">artigo publicado na revista <em>Bradleya<\/em><\/a>, assinado pelo trio de pesquisadores e Sinzinando Albuquerque-Lima. O esp\u00e9cime-testemunho da <em>Quiabentia pelodaserra<\/em> foi depositado no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/herbariohurb\/\">Herb\u00e1rio da UFRB<\/a>, onde s\u00e3o preservados exemplares que documentam esp\u00e9cies estudadas e descritas pelos pesquisadores.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVoc\u00eas pegaram o p\u00ealo-da-serra? Esse gruda em todo mundo!\u201d, disse um morador da regi\u00e3o do Distrito de Irec\u00ea, no centro-norte da Bahia, aos pesquisadores que discutiam qual nome dar \u00e0 esp\u00e9cie rec\u00e9m-descoberta de quiabento. A observa\u00e7\u00e3o, feita durante o trabalho de campo, ajudou a batizar a nova esp\u00e9cie como Quiabentia pelodaserra. 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