Conheça a história por trás da criação de Frankenstein
As obras literárias têm, ao longo do tempo, transformado em narrativas os medos e as esperanças provocados pelas descobertas científicas, além de retratar imagens e mitos construídos em torno da própria ideia de ciência.
Como observam Lucia de La Rocque e Luiz Antonio Teixeira (2001), “a literatura tem dado voz aos medos e esperanças gerados pelas descobertas científicas”. Essas representações também são influenciadas pelo contexto histórico, social e cultural dos autores. Em uma sociedade na qual a ciência e a produção intelectual eram amplamente dominadas pelos homens, a autoria feminina podia produzir uma perspectiva diferente e enfrentar resistências específicas.
Publicado pela primeira vez em 1818 com o título Frankenstein; ou, O Prometeu moderno, o romance permite discussões relevantes tanto para a sociedade inglesa do século XIX quanto para o mundo atual. A obra aborda a vontade humana de ultrapassar os limites da natureza, a responsabilidade diante daquilo que se cria, o abandono e a rejeição daqueles que são considerados diferentes.
O livro é frequentemente apontado como uma obra precursora da ficção científica, sem deixar de integrar a tradição do romance gótico e da literatura de horror. Mas como uma escritora de apenas 18 anos chegou a uma história que atravessaria mais de dois séculos?
A noite que deu origem a Frankenstein
O cenário em que a obra começou a ser concebida foi resumido pela jornalista Luise Fialho, em matéria publicada pela TAG Livros: “A ideia para Frankenstein surgiu em uma noite chuvosa de verão na Suíça” (FIALHO, 2018).
Em 1816, Mary Wollstonecraft Godwin, posteriormente conhecida como Mary Shelley, encontrava-se nas proximidades do Lago de Genebra acompanhada de Percy Bysshe Shelley, seu futuro marido, de seu filho pequeno e de sua meia-irmã Claire Clairmont. Na região também estavam o poeta Lord Byron e seu médico, o escritor John William Polidori.
Aquele período apresentou um clima excepcionalmente frio e chuvoso. Durante os encontros na Villa Diodati, residência alugada por Byron, o grupo leu histórias fantásticas e conversou sobre literatura, filosofia, eletricidade e estudos relacionados ao princípio da vida. Lord Byron então propôs que cada participante escrevesse uma história de fantasmas.
Mary inicialmente teve dificuldade para encontrar uma ideia. Em sua introdução à edição de 1831, ela contou que, depois de ouvir uma conversa sobre a possibilidade de reanimar um corpo, teve uma espécie de sonho desperto: imaginou um jovem estudioso diante do ser que havia construído, observando os primeiros sinais de vida daquela criação.
A visão, tradicionalmente associada à madrugada de 16 de junho de 1816, forneceu o ponto de partida para a narrativa. A ideia inicialmente curta foi desenvolvida com o incentivo de Percy Shelley e se transformou em um romance. Os manuscritos preservados permitem acompanhar a escrita de Mary e também as sugestões editoriais feitas por Percy durante a preparação do livro.
Victor Frankenstein e sua criatura
No romance, Victor Frankenstein é um jovem estudante universitário que se dedica à filosofia natural e à química e, posteriormente, aprofunda seus conhecimentos de fisiologia e anatomia. Ao investigar os processos da vida e da morte, ele consegue dar vida a uma criatura formada a partir de matéria orgânica.
Horrorizado com o resultado de seu experimento, Victor abandona o ser que criou. A criatura, que não recebe um nome no livro, passa a observar as pessoas, aprende a falar e a ler e desenvolve sentimentos humanos. Entretanto, sua aparência provoca medo e rejeição. Diante do abandono e da impossibilidade de ser aceita, ela se revolta contra seu criador.
Na cultura popular, o nome Frankenstein passou a ser usado para designar a criatura. No livro, porém, Frankenstein é o sobrenome de Victor, o criador. O ser permanece sem nome, condição que reforça sua exclusão da comunidade humana.
O subtítulo O Prometeu moderno aproxima Victor do personagem da mitologia grega associado à entrega do fogo e do conhecimento à humanidade. A comparação também envolve transgressão e castigo: Victor alcança um conhecimento extraordinário, mas se recusa a assumir a responsabilidade pela vida que produziu.
Autoria feminina e reconhecimento
A primeira edição de Frankenstein foi publicada anonimamente em 1º de janeiro de 1818, quando Mary Shelley tinha 20 anos. Como o prefácio havia sido redigido por Percy Bysshe Shelley e o livro era dedicado ao filósofo William Godwin, pai de Mary, alguns leitores e críticos chegaram a associar a obra ao poeta.
O nome de Mary Shelley apareceu na edição inglesa publicada em 1823, cinco anos depois. Em 1831, ela lançou uma versão revisada, acompanhada de uma introdução na qual relatou como havia concebido a história.
Folha de rosto do primeiro volume da edição original de Frankenstein; ou, O Prometeu moderno, publicada anonimamente em 1818. A ausência do nome da autora documenta a forma como a obra chegou inicialmente ao público. Wikimedia Commons. Obra em domínio público.
Capa da primeira edição alemã de Frankenstein, publicada por Max Altmann, em Leipzig, em 1912. Fotografia: Woodland987. Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0.
Capa da edição digital de Frankenstein; ou, O Prometeu moderno, com Mary Wollstonecraft Shelley identificada como autora. Project Gutenberg. Arte de capa disponibilizada em domínio público.
As imagens permitem observar diferentes formas de apresentação editorial da obra e, sobretudo, o contraste entre a publicação original sem identificação da autora e o reconhecimento posterior de Mary Shelley.
A recepção do romance também expôs o preconceito enfrentado pelas mulheres que escreviam naquele período. Parte da crítica julgou a obra de maneira diferente depois de saber que sua autora era uma mulher. Mary precisou conquistar reconhecimento em um ambiente literário e intelectual amplamente dominado por homens, apesar de ter criado uma das narrativas mais originais e influentes da literatura.
Essa trajetória permite refletir sobre como o machismo pode interferir no reconhecimento da produção intelectual feminina. O anonimato inicialmente ocultou a autoria de Mary, enquanto a proximidade de um escritor já conhecido favoreceu suposições de que a criação pertenceria a um homem. Seu reconhecimento posterior não apaga essa desigualdade; ao contrário, ajuda a torná-la visível.

Mary Shelley, em retrato de Richard Rothwell, produzido entre 1831 e 1840. Acervo da National Portrait Gallery, Londres. Wikimedia Commons. Obra em domínio público.
A formação intelectual de Mary também foi marcada pelo legado de sua mãe, a escritora e filósofa Mary Wollstonecraft, autora de A Vindication of the Rights of Woman, publicada em 1792 e considerada uma obra fundamental na defesa da educação e dos direitos das mulheres.
Essa herança contribui para leituras feministas de Frankenstein, especialmente nas discussões sobre autoria, criação, maternidade, abandono e poder. Ao mesmo tempo, o romance permanece aberto a diferentes interpretações relacionadas à ética científica, à responsabilidade e à rejeição do outro.
A história de Mary Shelley no cinema
Uma das inspirações para esta matéria foi o filme biográfico Mary Shelley (2017), dirigido pela cineasta Haifaa al-Mansour e protagonizado por Elle Fanning. O longa dramatiza a juventude da escritora, sua relação com Percy Shelley, o encontro com Lord Byron e o processo que levou à criação de Frankenstein.
O filme pode ser encontrado em serviços de streaming e locação digital, conforme a disponibilidade em cada plataforma. É uma porta de entrada interessante para conhecer a trajetória de Mary Shelley, embora, como obra biográfica dramatizada, apresente escolhas ficcionais e não substitua as fontes históricas.
Leia Frankenstein gratuitamente
O filme e suas muitas adaptações ajudaram a transformar a criatura em um ícone da cultura popular, mas a história concebida por Mary Shelley é mais complexa do que grande parte das versões produzidas para o cinema. A leitura do romance permite conhecer a voz da criatura, suas reflexões sobre a humanidade e os conflitos éticos que atravessam a obra.
Dica de leitura
O Project Gutenberg disponibiliza gratuitamente a edição original de 1818 de Frankenstein; or, The Modern Prometheus, em inglês. O livro pode ser lido on-line ou baixado em formatos como EPUB, Kindle e texto simples.
Mais de duzentos anos depois, Frankenstein permanece presente na literatura, no teatro, no cinema e em diferentes manifestações culturais. Suas perguntas sobre ciência, responsabilidade, abandono, preconceito e poder continuam vivas — assim como a criatura que Mary Shelley imaginou durante aquele verão chuvoso.
Fontes consultadas
- LA ROCQUE, Lucia de; TEIXEIRA, Luiz Antonio. Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker: gênero e ciência na literatura. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, v. 8, n. 1, p. 11–34, 2001.
- FIALHO, Luise Spieweck. Conheça a história por trás da criação de Frankenstein. TAG Livros, 24 jan. 2018.
- UNESP CIÊNCIA. Portal Unesp Ciência. Fonte consultada na pesquisa original.
- PRADO, Leobaldo. Jornalista, locutor, narrador e produtor e apresentador do podcast de literatura Verso da Prosa. Fonte consultada na pesquisa original.
- SHELLEY, Mary. Frankenstein; or, The Modern Prometheus: edição de 1831. Romantic Circles.
- SHELLEY-GODWIN ARCHIVE. Frankenstein, or the Modern Prometheus: manuscritos e história da composição.
- UNIVERSITY OF OXFORD. Frankenstein, de Mary Shelley. Faculty of English.
- OPEN UNIVERSITY. There Were Four of Us. OpenLearn.
- BRITISH FILM INSTITUTE. Mary Shelley, filme de 2017.
- PROJECT GUTENBERG. Frankenstein; or, The Modern Prometheus: edição de 1818.
Texto publicado originalmente em 3 de novembro de 2020. Revisado em 2023 e atualizado em 2026.

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