Pesquisa

Pesquisador da UFRB integra grupo que investiga composto contra dor e inflamação usando peixe-zebra

Testes mostraram que o composto reduziu significativamente os sinais de dor, principalmente na fase inflamatória

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas de universidades públicas brasileiras revelou um composto com potencial para o desenvolvimento de um novo medicamento contra a dor e inflamação. O estudo investigou as propriedades do complexo metálico [Eu(dbm)₃.LAP], derivado do lapachol, substância encontrada em plantas brasileiras, e obteve resultados promissores em testes pré-clínicos realizados com peixes-zebra adultos.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade do Vale do Acaraú (UVA) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Pela UFRB, participou o professor Jorge Fernando Silva de Menezes, do Centro de Formação de Professores (CFP), campus Amargosa, responsável pela supervisão científica, revisão e edição do artigo.

Como o estudo foi realizado

Os pesquisadores utilizaram o peixe-zebra, espécie comumente usada nas pesquisas farmacológicas, para avaliar a ação do composto sobre o canal nervoso TRPA1, proteína envolvida na percepção da dor e nos processos inflamatórios.

Nos experimentos, o complexo foi administrado por via oral e comparado com medicamentos de referência. A morfina foi utilizada como controle positivo para avaliar o potencial analgésico, enquanto a cânfora foi empregada antes do composto para bloquear o canal TRPA1. Ao reverter o efeito analgésico observado, o pré-tratamento indicou que esse canal desempenha papel importante no mecanismo de ação da substância investigada. 

Os testes mostraram que o composto reduziu significativamente os sinais de dor, principalmente na fase inflamatória das reações avaliadas, com desempenho comparável ao da morfina nessa etapa específica. O efeito foi bloqueado pela cânfora, indicando que o mecanismo de ação está relacionado à modulação do canal TRPA1.

Além disso, os pesquisadores observaram redução do edema induzido por carragenina, diminuição do estresse oxidativo em tecidos cerebral e hepático e elevada estabilidade molecular em simulações computacionais. As análises também apontaram uma boa absorção intestinal, potencial para atravessar a barreira hematoencefálica e baixa probabilidade de efeitos cardíacos.

Segundo Jorge Fernando Silva de Menezes, um dos principais avanços da pesquisa é demonstrar que a combinação entre um elemento da família das terras raras e uma molécula de origem natural pode originar uma nova entidade química com propriedades biológicas distintas das substâncias que lhe deram origem.

“A associação entre o európio, o dibenzoilmetano e um derivado do lapachol reuniu, em um mesmo sistema, atividade antinociceptiva seletiva para a fase inflamatória, efeito anti-edematogênico e ação antioxidante. Trata-se de uma prova de conceito pré-clínica promissora, mas ainda não significa que esteja pronto para uso como medicamento ou para experimentação imediata em seres humanos”, explicou o pesquisador.

Próximos passos

Apesar dos resultados positivos, os autores destacam que o estudo representa uma etapa inicial do desenvolvimento de um possível candidato terapêutico. Antes de qualquer teste clínico em humanos, ainda será necessário ampliar a caracterização química do complexo, comparar seus efeitos com os de seus componentes isolados, validar os resultados em modelos de mamíferos, determinar experimentalmente a farmacocinética e a biodistribuição e desenvolver uma formulação farmacêutica estável. “Somente após a demonstração consistente de eficácia, segurança e qualidade será possível solicitar autorização para iniciar estudos clínicos”, ressalta Jorge Fernando.

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