Grupo de pesquisa da UFRB desenvolve equipamentos de análise química de baixo custo
Uma equipe de pesquisadores(as) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) está desenvolvendo equipamentos de análise química de baixo custo como alternativas a instrumentos comerciais utilizados em laboratórios. A proposta é ampliar o acesso à experimentação científica por meio da construção de protótipos com componentes acessíveis e recursos digitais de código aberto, buscando manter a confiabilidade das medições.
O trabalho é desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa em Físico-Química Orgânica, formado por professores(as), técnicos(as) e estudantes de graduação e pós-graduação do Centro de Formação de Professores (CFP), no campus de Amargosa. Até o momento, a equipe desenvolveu dois protótipos: um espectrofotômetro de refletância, voltado à medição de cores, e um radiômetro de ultravioleta (UV), capaz de medir diferentes faixas da radiação ultravioleta.
Em comum, os dois equipamentos utilizam sensores para medir diferentes faixas de radiação eletromagnética. Parte dessa radiação é percebida pelo olho humano na forma de luz visível e, consequentemente, de cores. Outras faixas, como a radiação ultravioleta, não são percebidas pela visão humana e precisam de instrumentos específicos para serem medidas.
Medição da luz refletida por objetos
No caso do espectrofotômetro, o instrumento utiliza três canais de sensores — vermelho, verde e azul (RGB) — para medir a luz refletida por objetos.
A medição da cor pode ter diferentes aplicações. Na indústria, por exemplo, ela pode ser utilizada como parâmetro de controle de qualidade. Em produtos como tecidos e alimentos, as características de cor podem auxiliar na classificação e na avaliação dos materiais. Em análises químicas, a intensidade do sinal também pode ser relacionada à concentração de determinadas substâncias.
Para verificar o desempenho do protótipo, os pesquisadores da UFRB realizaram testes com diferentes concentrações de substâncias químicas e compararam os resultados com aqueles obtidos em um equipamento comercial utilizado como referência.
Segundo o professor e pesquisador do Grupo, Rodrigo de Paula, os experimentos apresentaram forte correlação entre as medições realizadas pelo protótipo e pelo equipamento de referência. Os testes foram realizados com diferentes substâncias e indicaram que o instrumento construído apresentou desempenho adequado às aplicações avaliadas. “Nosso protótipo conseguiu medir com precisão similar e relacionar a cor medida com a concentração de uma dada substância, com eficiência surpreendentemente semelhante à do equipamento padrão”, explica Rodrigo.
Radiação ultravioleta

O segundo protótipo desenvolvido pelo grupo é um radiômetro capaz de medir a radiação ultravioleta nas faixas UV-A, UV-B e UV-C que fazem parte da variedade do nível da radiação ultravioleta. Diferentemente da luz visível, a radiação ultravioleta não é percebida pelo olho humano e sua medição é importante para estudos sobre a exposição à radiação solar, ao monitoramento ambiental e a processos químicos que utilizam radiação.
Em um dos experimentos, o radiômetro foi utilizado para comparar a radiação ultravioleta em dois dias com condições meteorológicas distintas, em Amargosa. Em 6 de maio, o céu estava nublado; dois dias depois, em 8 de maio, o dia estava ensolarado. As medições permitiram comparar a potência e a energia da radiação ultravioleta nas diferentes condições. Os resultados obtidos pelo protótipo foram coerentes com aqueles registrados pelo equipamento comercial utilizado como referência.
O radiômetro também pode encontrar aplicações em pesquisas que dependem da radiação ultravioleta para desencadear processos químicos. Uma das linhas de pesquisa desenvolvidas pelo grupo envolve a fotodegradação de contaminantes presentes na água utilizando luz solar ou fontes artificiais. Nesse tipo de experimento, medir a quantidade de radiação ultravioleta disponível permite compreender melhor as condições em que os processos químicos ocorrem.
Equipamentos mais acessíveis
A diferença de custo quando comparado ao praticado no mercado é um dos principais diferenciais dos dois projetos. O protótipo do espectrofotômetro desenvolvido pelo grupo teve custo aproximado de R$ 200. Já um espectrofotômetro comercial pode partir de aproximadamente R$ 15 mil e alcançar valores superiores a R$ 100 mil, dependendo do modelo e da configuração.
No caso do radiômetro, o custo de construção também ficou em torno de R$ 200, enquanto um equipamento comercial utilizado como referência pode custar cerca de R$ 12 mil.
Para Rodrigo de Paula, a redução de custos está diretamente relacionada à proposta de democratização da ciência. “O principal foco é a democratização da ciência, promovendo a criação de equipamentos com o mesmo grau de precisão científica de equipamentos comerciais”, afirma o pesquisador.
A proposta dos equipamentos começou a se estruturar a partir da participação do grupo na 48ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (RASBQ), em 2025. Na ocasião, os pesquisadores identificaram a possibilidade de utilizar componentes disponíveis comercialmente, a custos relativamente baixos, para construir seus próprios instrumentos e superar algumas limitações dos métodos analíticos com os quais trabalhavam.
A partir dessa experiência, o grupo passou a desenvolver os protótipos, buscando construir instrumentos que pudessem atender a demandas específicas de análise e, em alguns casos, ser utilizados em situações de campo.
Desenvolvimento dos protótipos
O estudante de Licenciatura em Química e bolsista de iniciação científica Cleiton Castro participou do desenvolvimento dos dois equipamentos, atuando na construção, programação, calibração e validação dos protótipos. Segundo ele, um dos maiores desafios foi aprender, desde os fundamentos, conhecimentos de automação e programação que não faziam parte de sua formação em Química.
Para Cleiton, a experiência representa o estabelecimento de uma nova linha de pesquisa dentro do grupo. “Essa linha de desenvolvimento de instrumentos de baixo custo começou no grupo a partir do meu trabalho. Era uma área em que o grupo ainda não tinha experiência prévia, e eu também comecei do zero nos conhecimentos de automação e programação necessários ao projeto”, afirma.
Nesse processo, ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio ao desenvolvimento. Entre as aplicações estiveram a revisão e identificação de erros nos códigos, a criação de funções para leitura dos sensores, comunicação por Bluetooth, apresentação dos resultados em gráficos e armazenamento dos dados.
Cleiton ressalta que a tecnologia, entretanto, foi utilizada como ferramenta de apoio, e não como substituta da experimentação. As sugestões geradas pela IA eram testadas no equipamento real, enquanto a montagem, as medições e a avaliação dos resultados eram realizadas pela equipe. “A IA acelerou bastante o aprendizado e o desenvolvimento, enquanto a responsabilidade pelas decisões e pela validade científica dos resultados permaneceu conosco”, pontua o pesquisador.
O estudante relata que a confiança no funcionamento dos protótipos foi sendo construída ao longo dos testes, especialmente a partir da comparação entre as respostas dos equipamentos desenvolvidos e dos instrumentos utilizados como referência. “A sensação foi, sobretudo, de realização. Os bons resultados deram forma a um trabalho que acompanhei desde o início e pelo qual tenho um sentimento muito forte de responsabilidade e de autoria”, declara.
Próximos passos
Entre os projetos que estão sendo planejados estão o protótipo de equipamentos capazes de realizar diferentes tipos de medidas, incluindo análises de absorção e emissão de luz e medições em diferentes temperaturas. O grupo também pretende desenvolver instrumentos para acompanhar, em tempo real, a produção de gases durante processos de transformação de biomassa.
As limitações atuais estão relacionadas principalmente ao nível de precisão desejado e aos componentes utilizados nos equipamentos. Segundo Rodrigo, sensores, lâmpadas e outros componentes eletrônicos podem ser substituídos por versões mais avançadas à medida que se busca maior precisão, o que também eleva o custo de construção.
Reconhecimento
O trabalho do grupo foi apresentado por meio do artigo “Alternative Chemical Analysis: From Building to Fundamentals in Many Analytical Chemistry Techniques”, durante a 49ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, realizada em junho de 2026. No evento, a pesquisa recebeu o Prêmio da Divisão de Química Analítica, concedido pela qualidade dos equipamentos desenvolvidos pelo grupo.
O reconhecimento ocorre após o desenvolvimento e a validação dos primeiros protótipos e reforça uma proposta que está no centro da pesquisa: desenvolver alternativas tecnológicas acessíveis para ampliar as possibilidades de experimentação e análise científica.