Pesquisadores da UFRB e de instituições parceiras descrevem nova espécie de bromélia na Serra da Jiboia
Uma nova espécie de bromélias foi descrita por pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a partir de exemplares encontrados na Serra da Jiboia, na Bahia. Batizada de Racinaea nana, a planta é considerada criticamente ameaçada de extinção (CR) e tem ocorrência em uma área restrita no topo da serra, no município de Elísio Medrado (BA).
A pesquisa foi conduzida por Everton Hillo de Souza e Lidyanne Aona, da UFRB, em parceria com pesquisadores(as) do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ/CNCFlora) e da Embrapa Mandioca e Fruticultura.
A identificação da Racinaea nana faz parte de um estudo muito maior. Entre 2019 e 2025, a pesquisa de campo do levantamento registrou 61 espécies de bromélias na Serra da Jiboia, distribuídas em três grupos (Bromelioideae, Tillandsioideae e Pitcairnioideae). Do total, 20 são endêmicas da Bahia, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do mundo, e dez têm a serra como local onde foram identificadas pela primeira vez.
Pequena e rara
Pertencente à subfamília Tillandsioideae, a Racinaea nana mede apenas entre 12 e 16 centímetros de altura, e é daí que vem o nome: nana vem do latim e significa “anã”. É uma planta epifítica: cresce sobre o tronco e galhos de outras plantas sem parasitá-las. No caso da nova espécie, ela ocupa pequenos ramos de arbustos, em áreas de floresta nas partes mais altas da serra. Também é microendêmica, ou seja, só é encontrada na Serra da Jiboia.

Mas somente essas características não são suficientes para identificar a Racinaea nana como uma nova espécie. Segundo o coordenador da pesquisa, Everton Hillo, para reconhecer uma planta inédita é preciso análises minuciosas de estrutura, folhas, flores e inflorescência e comparar o material com espécies já conhecidas. “[No caso da Racinaea nana] a comparação revelou um conjunto consistente de características que diferenciava aquela população: o porte muito menor, as folhas menores, a inflorescência geralmente simples e a porção fértil mais curta. Esse conjunto de características permitiu reconhecer a planta como uma espécie distinta”, explica
Embora só tenha sido descrita agora, a planta já havia sido coletada anos atrás. O pesquisador explica que foi necessário aguardar até que a planta florescesse em cultivo e produzisse material reprodutivo adequado para confirmar sua identidade.
A nova espécie já é classificada como Criticamente Ameaçada de Extinção (CR) devido a sua distribuição geográfica extremamente restrita. Sua área de ocupação é estimada em apenas 4 km², no cume da serra, em uma região sem proteção por Unidades de Conservação oficiais e sujeita a queimadas e à degradação ambiental.
Para preservar seu registro científico, os espécimes coletados foram depositados no Herbário do Recôncavo da Bahia (HURB), localizado no campus da UFRB, em Cruz das Almas. O acervo é fundamental para a documentação, conservação da flora baiana e estudos futuros.
Alerta para a conservação

A Serra da Jiboia abrange municípios do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá, como Elísio Medrado, Santa Teresinha, Amargosa, Varzedo, São Miguel das Matas e Castro Alves. A relação da UFRB com a região é antiga, com pesquisas sendo feitas desde 2002, antes mesmo da criação da universidade, conduzidas por pesquisadores que hoje atuam nela. Para Everton Hillo, a serra é “o nosso laboratório de campo”, onde são realizadas aulas práticas para estudantes de graduação e pós-graduação.
Apesar dessa importância, a região ainda não possui Unidade de Conservação oficial. A situação da nova espécie reforça a necessidade de ampliar as ações de proteção, e os dados produzidos pela UFRB podem contribuir para o Plano de Ação Territorial para a Conservação de Espécies Ameaçadas (PAT-CDSJ), ajudando a orientar o monitoramento e a conservação na região.
Para Everton Hillo, a descoberta e descrição da Racinaea nana mostram que a Serra da Jiboia ainda guarda segredos botânicos e exige medidas imediatas de proteção ambiental. “Não podemos esperar conhecer absolutamente tudo para começar a proteger uma área”, defende o pesquisador.