Pesquisa da UFRB investiga produção de hidrogênio verde com resíduos agrícolas do Recôncavo
Um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) investiga o potencial de resíduos agrícolas do Recôncavo Baiano para a produção de hidrogênio verde, combustível produzido a partir de fontes renováveis e com baixa emissão de carbono. A pesquisa analisa como a biomassa gerada por atividades agroindustriais pode ser reaproveitada, transformando materiais que seriam descartados em uma fonte de energia limpa e sustentável.
A pesquisa foi desenvolvida pelo estudante Elias de Jesus, sob orientação da professora Consuelo Cristina Gomes Silva, do Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade (CETENS). O trabalho também contou com a participação de Luiz Henrique Santos Silva, professor da UFRB na área de Engenharia Elétrica, Jaqueline de Freitas Silva, graduanda em Engenharia de Energias da instituição, além de Marcela Kotsuka da Silva e Jaci Carlo Schramm Câmara Bastos, ambos pesquisadores da Universidade Regional de Blumenau (FURB).

Resíduos agrícolas como fonte de energia
Elias explica que a produção de hidrogênio pode ocorrer por rotas termoquímicas ou biológicas, diferentes processos tecnológicos que transformam biomassa em combustível. Entre os processos estudados estão a gaseificação da biomassa, a reforma do biometano e a reforma do etanol. De acordo com o estudante, o diferencial dessas tecnologias está na utilização de matérias-primas renováveis e na possibilidade de integração com fontes limpas de eletricidade, tornando a produção mais sustentável.
Entre os materiais avaliados pelo grupo estão resíduos provenientes do setor sucroalcooleiro, da dendeicultura e da mandiocultura. A partir desse levantamento, a pesquisa busca identificar quais fontes de biomassa apresentam maior potencial para a produção de hidrogênio verde e quais rotas tecnológicas oferecem melhores resultados em termos de eficiência energética e redução das emissões de carbono.
O setor sucroalcooleiro aparece como um dos mais promissores devido à grande escala de produção e ao avanço tecnológico já existente na reforma do etanol. Já os resíduos provenientes do dendê e da mandioca despontam como alternativas estratégicas para fortalecer a descentralização da produção de energia no interior da Bahia.
A expectativa é que o estudo contribua como base para pesquisas experimentais futuras e para a formulação de políticas públicas voltadas à transição energética regional. “O que seria descartado volta para reúso. A gente pode gerar energia e diminuir essa emissão de carbono”, destacou o estudante.
O potencial da biomassa no Recôncavo Baiano
O estudo também reforça o potencial estratégico do Recôncavo Baiano para o desenvolvimento de novas cadeias energéticas sustentáveis. Segundo Elias, a região reúne tradição agrícola, disponibilidade de biomassa residual e características que podem favorecer o desenvolvimento de soluções energéticas descentralizadas, aproximando a produção de energia das áreas onde os resíduos são gerados. O pesquisador defende que “a gente pode também trazer o interior para participar desse progresso, desse incentivo à produção e à inserção de recursos”.
Para a professora Consuelo Cristina Gomes Silva, orientadora da pesquisa, a pesquisa representa uma contribuição científica para compreender como os recursos disponíveis no território baiano podem ser integrados à produção de hidrogênio verde. Segundo ela, o aproveitamento de resíduos agrícolas, florestais e urbanos pode transformar materiais que hoje são subutilizados em fontes de energia limpa, reduzindo impactos ambientais associados ao descarte desses resíduos.
“O estudo ajuda a conectar a vocação energética do estado ao aproveitamento sustentável de resíduos, oferecendo informações que podem subsidiar políticas públicas, orientar investimentos e apoiar decisões sobre onde e como desenvolver a cadeia do hidrogênio verde”, destacou a professora.
Apresentada em março, no 2º IBEM, em Salvador, a pesquisa ainda está em fase teórica e analítica, com base no levantamento de dados secundários e na comparação de parâmetros técnicos, como eficiência energética e intensidade de carbono.
Para o estudante, o estudo representa a consolidação da formação acadêmica construída na UFRB e evidencia o papel da universidade pública na produção de ciência aplicada. De acordo com ele, “poder aplicar conceitos de termodinâmica, máquinas térmicas e sustentabilidade para propor soluções reais para o estado da Bahia é extremamente gratificante. É a prova de que a universidade pública produz ciência aplicada de qualidade”.
Além da dimensão energética, Elias destaca que o hidrogênio verde representa uma alternativa importante para a segurança energética e para o enfrentamento das mudanças climáticas. “Em um cenário de mudanças climáticas, aproveitar o que a terra nos dá de forma circular, devolvendo energia à sociedade a partir de resíduos, é o caminho para uma transição energética justa e inclusiva”, concluiu.
Leia a pesquisa em https://revistageo.com.br/revgeo/article/view/1875