As escolas multisseriadas são um tipo de organização educacional caracterizada pela junção de estudantes de diferentes idades e níveis de aprendizagem, geralmente agrupadas em um mesmo espaço, uma mesma sala, e comumente submetida à responsabilidade de um único professor, por isso também chamadas de escolas unidocentes. Por reunir grande heterogeneidade, são definidas como escolas multisseriadas e, mais recentemente, têm sido denominadas de escolas multiano, multiidade, e, em determinadas situações, de multietapa, quando ofertam conjuntamente a Educação Infantil com os Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Neste projeto, entretanto, manteremos a denominação mais conhecida: escolas multisseriadas.
Estima-se que cerca de 30% das escolas do mundo sejam multisseriadas. Aproximadamente, cerca de 200 milhões de alunos estudam em escolas multisseriadas, em todo o mundo, segundo estimativas de Joubert, sistematizadas por Santos (2015). No Brasil, do total de 45.199 escolas localizadas no campo, 28.568, ou seja, 63,20% delas possuem turmas multisseriadas, sendo que 19.973 (44,2%) possuem até 50 estudantes, segundo dados do Censo Escolar 2023 sistematizados por Medeiros (2024, p. 7 e 14). Ainda segundo este autor, em 2023, dos 1.735.137 estudantes matriculados em escolas do campo, das águas e das florestas, 809.265, o equivalente a 46,63%, estudavam em turmas multisseriadas.
Nas comunidades e territórios dos povos tradicionais e camponeses de todo o Brasil, as escolas e turmas multisseriadas cumprem a função social de garantir o Direito à Educação e representam uma possibilidade real de democratização da escolarização, que oportuniza o acesso e a permanência de crianças, adolescentes e jovens camponeses na escola, e em termos quantitativos, elas constituem a maioria das escolas do campo no Brasil, conforme apontado acima. Embora tenha sido historicamente negligenciada, este tipo de configuração escolar possui grande relevância social, cultural e política nos territórios do Campo, das Águas e das Florestas; estudos mais recentes têm apontado a riqueza pedagógica existente neste tipo de organização escolar, merecendo um olhar mais atento do Estado e da sociedade sobre este fenômeno, longe, portanto, das soluções apressadas e simplistas que pregam a sua extinção.

